Quase 30 anos depois: julgamento de Duane “Keffe D” Davis pelo assassinato de Tupac Shakur começa nesta segunda-feira

Por quase três décadas, o assassinato de Tupac Shakur permaneceu como um dos maiores mistérios da história do hip-hop. Agora, o caso finalmente chega ao tribunal. Duane “Keffe D” Davis, ex-integrante de uma gangue e apontado pelas autoridades de Nevada como o homem que teria orquestrado o ataque contra o rapper, começa a ser julgado nesta segunda-feira, 10 de agosto de 2026, em Las Vegas.

A abertura do julgamento representa um dos momentos mais aguardados de uma investigação que atravessou gerações. Tupac foi baleado em 7 de setembro de 1996, quando estava dentro de um BMW dirigido por Marion “Suge” Knight, após uma luta envolvendo membros de grupos rivais em Las Vegas. O rapper morreu seis dias depois, aos 25 anos. Desde então, inúmeras teorias, suspeitos e versões diferentes circularam em torno do crime.

Desta vez, porém, existe um acusado formalmente perante a Justiça: Duane Davis, conhecido pelo apelido “Keffe D”. Ele foi indiciado por um grande júri do condado de Clark, em Nevada, em setembro de 2023, sob acusação relacionada ao assassinato de Tupac. Davis se declarou inocente.

O que a acusação afirma

Para os promotores, Davis não precisa necessariamente ter sido o homem que puxou o gatilho para ser responsabilizado pelo crime. A tese apresentada pela acusação é de que ele teria participado da organização do ataque e fornecido a arma utilizada na emboscada.

Na noite do crime, Tupac estava em Las Vegas para acompanhar uma luta de Mike Tyson. Depois do evento, ele e integrantes de sua equipe deixaram o local em um comboio. Pouco tempo depois, um Cadillac branco se aproximou do BMW em que Tupac estava. Tiros foram disparados contra o veículo, atingindo o rapper.

O ataque aconteceu em uma região movimentada de Las Vegas, mas durante anos as autoridades não conseguiram apresentar um acusado formal pelo assassinato.

A investigação ganhou uma nova dimensão décadas depois, especialmente por causa das declarações públicas feitas pelo próprio Davis ao longo dos anos. Ele chegou a falar sobre o caso em entrevistas e também participou da produção do livro “Compton Street Legend”, publicado em 2019. A obra e declarações anteriores passaram a ocupar papel importante na disputa judicial sobre quais provas poderão ser apresentadas ao júri. Uma juíza de Nevada autorizou o uso do livro no julgamento.

Entrevista de 2008 poderá ser exibida

Um dos elementos potencialmente mais importantes do julgamento é uma entrevista concedida por Davis às autoridades em 2008.

Em 28 de julho de 2026, a juíza Carli Kierny decidiu que a gravação dessa entrevista poderá ser utilizada no julgamento. A decisão abre caminho para que os jurados tenham acesso a declarações feitas por Davis muitos anos antes de sua prisão.

A defesa tentou impedir que esse material fosse apresentado, mas não conseguiu retirar a gravação do conjunto de evidências autorizado pela Justiça.

A utilização de declarações antigas pode ser especialmente relevante porque o caso depende, em grande parte, da reconstrução de acontecimentos ocorridos quase 30 anos atrás. Para a acusação, as próprias palavras de Davis ao longo dos anos ajudam a estabelecer uma ligação entre ele, os acontecimentos daquela noite e a organização do ataque.

Defesa promete contestar a versão da acusação

Apesar do peso das acusações, Davis continua sendo legalmente inocente até que um júri determine o contrário.

A defesa tem questionado a interpretação dada pelos promotores às declarações de seu cliente e às evidências reunidas durante a investigação. O caso também passou por uma série de disputas judiciais antes do julgamento, incluindo pedidos para impedir a utilização de determinadas entrevistas, documentos e materiais produzidos por Davis.

A defesa ainda tentou impedir o uso de seu livro de memórias, mas a Justiça decidiu que a publicação poderá fazer parte das provas apresentadas aos jurados.

Davis, atualmente com 63 anos, enfrenta uma acusação que pode resultar em prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional caso seja condenado.

Um julgamento que vai muito além do tribunal

O caso chama atenção não apenas pelo assassinato de Tupac, mas também pelo tamanho do legado deixado pelo artista.

Tupac Shakur se tornou uma das figuras mais influentes da música mundial. Mesmo depois de sua morte, seus discos continuaram vendendo milhões de cópias, suas letras permaneceram presentes em novas gerações e sua imagem passou a representar diferentes aspectos da cultura hip-hop dos anos 1990.

Por isso, o julgamento de Davis possui um significado que ultrapassa a questão criminal. Para milhões de fãs, existe a expectativa de finalmente compreender o que aconteceu naquela noite em Las Vegas.

Durante anos, o assassinato alimentou teorias envolvendo rivalidades entre artistas, gangues e integrantes da indústria musical. O caso também ficou associado à chamada rivalidade entre as cenas de hip-hop da Costa Oeste e da Costa Leste dos Estados Unidos, especialmente por causa do ambiente de tensão existente naquele período.

Mas o tribunal terá uma missão muito mais objetiva: determinar se a acusação conseguiu provar, além de uma dúvida razoável, que Davis participou do assassinato de Tupac da maneira alegada pelos promotores.

Segunda-feira marca o início de uma nova fase

O início do processo está marcado para 10 de agosto de 2026, em Las Vegas. A data chega depois de sucessivos adiamentos e mudanças na preparação da defesa. O julgamento estava previsto anteriormente para ocorrer em outro momento, mas acabou sendo transferido para agosto enquanto os advogados trabalhavam na análise do grande volume de material produzido durante a investigação.

A expectativa em torno do tribunal é enorme. O caso reúne um dos maiores nomes da história do rap, um assassinato que permaneceu sem julgamento durante quase 30 anos e um acusado que, durante parte desse período, falou publicamente sobre os acontecimentos.

Agora, as declarações, documentos e demais evidências serão colocados diante de um júri.

Se o julgamento resultar em condenação, será um momento histórico para a investigação da morte de Tupac Shakur. Se Davis for absolvido, entretanto, a Justiça terá encerrado o processo sem uma condenação pelo assassinato — e o debate sobre quem foi responsável pela morte do rapper poderá continuar.

Quase três décadas depois dos tiros que interromperam a trajetória de Tupac, Las Vegas volta a ser o centro dessa história. Só que, desta vez, a pergunta não será apenas quem matou Tupac Shakur. O tribunal terá de decidir se a acusação conseguiu provar que Duane “Keffe D” Davis foi responsável por organizar o crime que tirou a vida de uma das maiores lendas da música.

 

Matéria: Vanessa C.

Olha essa notícia da Rádio CNS Brasil - #CNS